O SÍTIO DO FREI LIBERAL

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26.07.2009, Frei Bento Domingues O.P.(Público de 26 de Julho)

"Os problemas não se resolvem com milagres. Estes podem ser, eventualmente, uma pedra no charco do fatalismo"

1.No Evangelho segundo S. João ou, como outros dizem, no IV Evangelho, há uma passagem que tem provocado os comentários mais contraditórios. Estava Jesus à mesa com os discípulos, em casa de Lázaro, que havia retornado à vida. Marta servia-os. Maria, como se sabe por outras fontes, não era muito dada aos trabalhos de casa. Tinha outros interesses e alguns comportamentos estranhos. Conta o Evangelho que, nesse jantar, resolveu banhar os pés de Jesus com um "perfume de puro nardo, muito caro", e de os enxugar com os seus próprios cabelos. A casa ficou toda perfumada.
Judas estava nesse jantar. Não suportou a atitude passiva de Jesus: "Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários (equivalente a trezentos dias de salário) para dar aos pobres?" A observação de Judas não podia ser mais sensata: andava Jesus sempre preocupado com os pobres e, depois, deixa gastar, consigo, essa quantia exorbitante num gesto de pura gratuidade.
O narrador não gostou da observação de Judas e aproveitou para carregar mais a sua triste memória: "Ele disse isto, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, roubava o que aí era colocado." Mais ainda. O narrador destaca a reacção de Jesus, politicamente incorrecta, que atravessou os séculos e tem sido usada para o melhor e para o pior: "Deixai-a; para me ungir no dia do meu sepultamento é que o guardou! Pois sempre tereis pobres convosco, mas a mim nem sempre me tereis."

2.Já não estamos no clima da "opção preferencial pelos pobres", um tema fundamental da Teologia da Libertação. Dispomos, no entanto, de bastantes teóricos para explicar as raízes da pobreza e com programas que a podem vencer a curto prazo. Não faltam obras de autores muito considerados – vários já apresentados nestas crónicas – que apontam métodos e medidas para conseguir o fim da pobreza na nossa geração. De vez em quando, há notícias, a nível nacional e internacional, de voluntários das organizações da Igreja ou não, tanto para socorrer os pobres, em situação de urgência, como para vencer as razões da sua exclusão.
António Guterres – alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados – veio a Lisboa receber o Prémio Internacional Calouste Gulbenkian. Foi entrevistado por Teresa de Sousa (P2, 22/07/2009). Esta lembrou-lhe a comparação que tinha feito entre os gastos da comunidade internacional para salvar o sistema financeiro e o que fazia para salvar as pessoas em situação desesperada. Esclareceu que não pede que seja gasto o mesmo dinheiro que foi gasto para salvar o sistema financeiro: "Se o fizesse seria demagogo. O que peço é que seja dada a mesma atenção aos problemas humanos que é dada aos problemas financeiros. (…) O financeiro recebe sempre mais atenção que o económico, o económico mais que o social e o social mais atenção que o humanitário."
Há 40 anos, uma data recordada na semana passada, os astronautas norte-americanos realizaram um grande sonho: "Aqui, homens do planeta Terra/ puseram os pés na Lua pela primeira vez/ Julho 1969 A.D./ Viemos em paz em nome da Humanidade."
Os dramas da pobreza extrema e da exclusão, que entristecem o nosso mundo, estão muito mais perto do que a Lua. Porque será que o abismo entre ricos e pobres se alarga cada vez mais? Poderíamos actualizar a queixa de Judas: em vez de andar a gastar essas somas astronómicas com a conquista do espaço, não seria melhor aplicá-las a vencer esta distância desumana? Não me parece que o dinheiro aplicado na investigação seja roubado aos pobres. Não seria difícil mostrar que os seus resultados podem vir a beneficiar toda a gente, tornar-se um bem comum para futuras gerações. A questão é outra.

3.Jesus Cristo não deixou nenhum método científico nem qualquer fórmula técnica para resolver os nossos problemas. Ninguém lhe peça, mesmo que seja muito católico, um programa de governo ou qualquer projecto de desenvolvimento.
É verdade que, na Missa de hoje, Jesus provoca os seus discípulos (Jo 6, 1-15). A situação era crítica. Uma multidão veio para a montanha escutar o mestre. Não havia nada para comer. Segundo os cálculos dos discípulos, duzentos denários de pão não chegavam nem para dar um bocadinho a cada um e não era com cinco pães de cevada e dois peixes, que um rapazito andava a vender, que se resolvia a questão. Jesus pediu aos discípulos para mandar sentar aquela gente toda. Deu graças a Deus, houve pão e peixe para todos – comeram quanto quiseram – e até sobrou, mas não permitiu desperdícios.
A multidão ficou entusiasmada: "Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo." Tinham encontrado a solução para todas as situações. O narrador desta história tem uma observação curiosa: Jesus, percebendo que o queriam fazer rei, fugiu. Os problemas não se resolvem com milagres. Estes podem ser, eventualmente, uma pedra no charco do fatalismo. Não são um método. A graça provoca a nossa responsabilidade, não a substitui. Não há falta de recursos. Há falta de sonho e de coração.

Publicado por morfeu às 11:23 AM | Comentários (0) | TrackBack

julho 12, 2009

Caritas in Veritate, sg/ B. Domingues

(…) Não toquei, nem ao de leve, na maioria dos temas abordados nesta encíclica. Desejo-lhe muitos leitores e muito debate. O que ela trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos e que exigem, como diz A. Maalouf, "uma visão totalmente diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura, da religião, da História" e também da teologia. (…)

(Público, 12 de Julho)

domingo, 12 de Julho de 2009
Caritas in Veritate: algo de novo?

O que a encíclica de Bento XVI trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos

1.O título da terceira encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate – uma grande expressão da Nova Aliança, abertura do coração e da inteligência -, não precisa de grande tradução, mesmo se o latim, em Portugal, se tenha tornado especialização de poucos. É de temática social e inscreve-se numa tradição que remonta à Rerum Novarum (1891) de Leão XIII, que teve uma posteridade fecunda no século XX. A última tinha sido a Centesimus annus (1991) de João Paulo II, para celebrar esses cem anos em que muita água correu por baixo e por cima das pontes. Entretanto, também João Paulo II tinha publicado a Sollicitudo rei socialis (1987) para celebrar a inovadora Populorum Progressio (1967) de Paulo VI, preparada pelo padre Louis-Joseph Lebret, O.P., fundador do movimento Economie et Humanisme. Respondia aos apelos da Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado por João XXIII.
A chamada Doutrina Social da Igreja (DSI) é, de facto, a Doutrina Social dos Papas. Não se identifica com os percursos dos "cristãos pensadores do social" – como lhes chamou e os descreveu Yves Calvez -, embora tenham sido eles que, de modo independente, animaram e alargaram os grandes debates desta área no catolicismo.
João Paulo II tinha sublinhado que a DSI não é uma "terceira via" entre capitalismo liberalista e colectivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa a outras soluções menos radicalmente contrapostas: constitui, por si mesma, uma categoria de natureza teológica (SRS 41).

2.A Caritas in Veritate de Bento XVI é um claro exemplo dessa opção. Embora procure ser uma mensagem para o mundo, essa característica nunca poderá ser bem entendida fora da expressão católica da fé cristã. O Papa apostou em não deixar nenhum aspecto na sombra, talvez para não multiplicar encíclicas, como fazia o seu predecessor. Apesar de muito noticiada nos meios de comunicação, não tem garantia de muitos leitores.
O seu grande marco é a Populorum Progressio de Paulo VI, mas existe para dizer que já não estamos no mesmo mundo e que a profundidade e a extensão da crise actual exige à Igreja uma nova lucidez, pois, como se diz no Evangelho, se for um cego a conduzir outro cego, caem ambos no buraco. Isto não significa que os Papas possam dispensar as ciências para caracterizar os fenómenos e disponham de competência própria para responder à velocidade das mudanças, num "mundo sem regras" (A. Maalouf).
O seu ponto de vista é teológico, mas não defende uma teocracia. Bento XVI não é um fundamentalista nem um ateu. Para ele, "razão e fé ajudam-se mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem: fascinada pela pura tecnologia, a razão sem a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência, enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas" (n.º 74). Ganhamos com a aliança entre as ciências e a caridade: "Vista a complexidade dos problemas, é óbvio que as várias disciplinas devem colaborar através de uma ordenada interdisciplinaridade. A caridade não exclui o saber, antes reclama-o, promove-o e anima-o a partir de dentro. O saber nunca é obra apenas da inteligência; pode, sem dúvida, ser reduzido a cálculo e a experiência, mas se quer ser sapiência capaz de orientar o homem à luz dos princípios primeiros e dos seus fins últimos, deve ser "temperado" com o "sal" da caridade. A acção é cega sem o saber e este é estéril sem o amor. De facto, aquele que está animado de verdadeira caridade é engenhoso em descobrir as causas da miséria, encontrar os meios de a combater e vencê-la resolutamente" (n.º 30).

3.A mútua inclusão da economia e da ética ocupa o centro da encíclica. O grande desafio que temos diante de nós – resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise económico-financeira – é mostrar, a nível tanto de pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser esquecidos nem debilitados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade (n.º 36).
Não existe neutralidade ética nas decisões económicas: a angariação dos recursos, os financiamentos, a produção, o consumo e todas as outras fases do ciclo económico têm inevitavelmente implicações morais (n.º 37).
Não toquei, nem ao de leve, na maioria dos temas abordados nesta encíclica. Desejo-lhe muitos leitores e muito debate. O que ela trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos e que exigem, como diz A. Maalouf, "uma visão totalmente diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura, da religião, da História" e também da teologia.

FONTE: anomalias.weblog.com

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About EL HINCHA Mag Cal Cauvin Calvinista Inclusivo

Protestante por consciência calvinista e zuingliana, um teísta remanescente (cristão integrado na Oholyáo de YÁOHU UL) antinominiano ecuménico e inclusivo (agostiniano, espiritualidade carmelita dos descalços, espiritualidade montfortina, espiritualidade dos presbiteranos liberais da PCUSA: http://www.pcusa.org/, cristianismo redivivo; atento às notícias da ciência hodierna, sempre numa perspectiva inclusiva de todos os Yaoshorulitas e demais seres relacionais) por a absoluta graça do Soberano YÁOHU UL da História e da legenda. Protestante reformado (Baptista particular), cheunguiano (Vincent Cheung, vide: http://robertovargas-make.blogspot.com/2010/08/da-interpretacao-de-textos.html), pós-milenista bíblico, preterista parcial, reconstrucionista(herancareformada.blogspot.com/ 2010/02/o-teonomismo-implicacoes-teologicas.html), teonomista (dominionista), pressuposicionalista, supralapsariano (http://www.monergismo.com/textos/predestinacao/infra_supra_phil.htm), tudo em desenvolvimento; reformar sempre a reformar. Sempre a reformar.

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