Cristãos e o Filme “A Paixão de Cristo”

 

 

Cristãos e o Filme "A Paixão de Cristo"

por Pr. Jorge Barros

Não vi ainda o filme "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson. Não pretendo, portanto, emitir qualquer opnião sobre o conteúdo do filme.

Mas, há uma atitude quase generalizada de cristãos diante deste filme que me preocupa. Muitos têm se referido a ele como se fosse um excelente instrumento de evangelização. Muitas pessoas, antes, durante e depois do filme, se portam como se lhes tivesse sido administrado um "potentíssimo meio de graça", embora muitos nem estejam familiarizados como o termo Meio de Graça. Algumas igrejas têm usado o próprio Dia do Senhor para promover exibições do filme, o que parece ser uma indicação do reconhecimento de seu valor e compatibilidade com o culto. Embora, acredite que algumas mortes já tenham acontecido antes em cinemas (ou relacionadas à exibição de jogos esportivos), as mortes ocorridadas durante a exibição deste filme têm recebido um destaque especial; reforçando a idéia da força, poder e impacto do filme. As atitudes dos expectadores têm sido descritas como marcadas por choro, soluços, ou até por uma profunda quietude. Já ouvi a respeito de pessoas que tendo visto o filme uma primeira vez, o repetiram seguidamente. Há quem diga que compreendeu melhor o evangelho através do filme.

Sim parece que o filme de Gibson tem funcionado como um "potentíssimo" Meio de Graça.

Porém, o que é um Meio de Graça? Meio de Graça é definido no Catecismo Maior de Westminster como meio exterior ordinário pelo qual "Cristo comunica à sua igreja os benefícios de sua mediação", e os identifica como sendo "todas as suas ordenananças, especialmente a Palavra, os Sacramentos e a Oração". E, acrescenta, "todos estes meios se tornam eficazes aos eleitos em sua salvação".

Por "meio exterior" devemos entender o meio instrumental e perceptível aos sentidos, em contraste com o invisível agente que aplica, ou comunica, a graça – o Espírito Santo. Como "meio ordinário" devemos entender: meio ordenado por Deus e, portanto, ordinariamente usado por Ele.

Mas, qual é a relação entre o filme e o Meio de Graça? A relação é que através dele pessoas esperam e dizem ter recebido coisas que o cristianismo oferece. Além disto, através deste filme pessoas têm experimentado sensações e emoções, que embora não sejam prometidas pelo cristianismo, são desejadas e buscadas por muitos na religião e no culto. Por isto é que o filme parece um "super meio de graça" recentemente lançado também no "mercado eclesiástico", pelo qual as pessoas procuram avidamente.

Mas, por que tanta avidez? Quanto aos que são católicos romanos, creio que os seguintes fatores são decisivos: a ausência de uma noção de suprema autoridade e suficiência da Bíblia em matéria de fé e prática, seus vários sacramentos concorrentes com os dois únicos instituídos por Cristo, a importância da visualização que se manifesta em seu culto através de imagens de escultura e na importância do Crucifixo com uma imagem de Cristo crucificado.

Quanto aos evangélicos creio que os principais fatores que geram tão grandes expectativas e tão fortes reações, quanto a este filme são: O atual desconhecimento e baixo apreço relativo aos Meios de Graça, especialmete quanto à Palavra.

Por mais fiel que seja o filme de Gibson aos Evangelhos, ele jamais será um Meio de Graça. Ele pode até sensibilizar, calar, hipnotizar, e até provocar a morte de pessoas. Mas ele nunca será um Meio de Graça (meio exterior ordinário pelo qual Cristo comunica ao homem os benefícios da Sua mediação). A recepção do Meio de Graça, normalmente, não provoca tão fortes reações externas e emocionais. Porém, é o meio ordenado por Deus para a comunicação da salvação. E, recebido com entendimento e fé é eficiente e suficiente para comunicar a salvação.

Meio de Graça continua sendo exclusivamente o que Cristo instituiu no Novo Testamento. E, é este somente o que a Igreja recomenda e administra. Também, é este somente o que crente busca e recebe.

O filme pode produzir profundas emoções, que também podem marcar profundamente uma pessoa. Mas, somente a Palavra de Deus (o principal Meio de Graça, do qual os outros derivam), aplicada pelo Espírito Santo, produz o Novo Nascimento, e transforma o homem em uma Nova Criatura.

Mas exite alguma orientação sobre o modo como a Igreja deve ministrar (servir) a Palavra? Não fica isto a critério de cada um de nós, conforme nossas habilidades pessoais, preferências do receptor, cultura e época? Não poderíamos fazê-lo por meio de peças teatrais e coreografias? Não, a própria Palavra de Deus deixa claro o modo como ela deve ser ministrada, isto é, por palavra. Basicamente, isto significa que a Palavra de Deus deve ser ministrada através de sua leitura, explicação e aplicação. Isto é o que se chama Pregação. Observe o que diz a Palavra de Deus em Romanos 10.13-17:

Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? assim como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos deram ouvidos ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem deu crédito à nossa mensagem?Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo.

Observe ainda o que está em 2 Timóteo 4.1-2:

Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino.

Entretanto, alguém poderia perguntar: mas não poderíamos fazer isto, até melhor, por meio do Teatro ou Cinema? Não. Em primeiro lugar, porque Deus não ordenou que de outro modo fosse feito, senão pela Palavra Pregada. Em segundo lugar porque Teatro e Cinema são de natureza totalmente diferente da Pregação. Teatro e Cinema são meios de expressão do homem para o homem, ou seja, entre iguais. Eles são bons veículos de entretenimento, imaginação, fantasia e ficção. Eles podem ser informativos, sugestivos, e até, apelativos. O Teatro e o Cinema, como as artes em geral, são bons instrumentos de comunicação da cultura. Mas, eles são impróprios para a comunicação entre entre Deus e o homem, para a comunicação da Verdade – o Conhecimento cuja origem não está na ciência humana, mas na iniciativa de Deus em revelar-se. A Pregação é autoritativa e doutrinadora, por isto ela é um veículo apropriado da comunicação entre Deus e o homem. A Pregação é "filha" da Profecia. A Profecia é, mais rigorosamente, a Palavra vinda diretamente de Deus. A Profecia veio a ser a Palavra de Deus Escrita, isto é, a Bíblia (2 Pedro 1.19-20). A Pregação é a Palavra vinda diretamente da Palavra de Deus (a Bíblia). Assim como a Profecia foi o modo da expressão de Deus ao homem, enquanto a Bíblia não estava completa; depois disto, a Pregação é o modo regular da expressão de Deus ao homem. Na medida em que a Pregação é fiel à Palavra Escrita, ela carrega a autoridade divina e a bênção do Espírito Santo. A fiel Pregação da Palavra é capaz de satisfazer verdadeira e plenamente todas as necessidades espirituais do homem e, portanto, produzir crentes plenamente satisfeitos em Deus, maduros e estáveis, obedientes e ativos.

Quando, entretanto, os Meios de Graça, especialmente a Palavra de Deus são negligenciados na Igreja, o coração das pessoas fica vazio e ansioso por ser preenchido. Assim estará continuamente aberto para receber qualquer coisa, dentro ou fora da da igreja, que pareça que vá atender às suas carências. Onde e quando faltam os Meios de Graça a idolatria se manifesta e cresce. Ao ordenar os Meios de Graça, era objetivo divino nos conduzir a cultuá-lo em espírito e em verdade, afastando o perigo da idolatria.

Imagens de escultura e figuras não são as únicas formas de idolatria (Cl 3.5), mas são uma forma muito comum e visível. Deus proibiu o uso de imagens de escultura e figuras para o culto:

"Então, o Senhor vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma… Guardai, pois, cuidadosamente, a vossa alma, pois aparência nenhuma vistes no dia em que o Senhor, vosso Deus, vos falou em Horebe, no meio do fogo; para que não vos corrompais e vos façais alguma imagem esculpida na forma de ídolo, semelhança de homem ou de mulher…" (Dt 4.12-18).

Porém, nosso coração, idólatra por natureza, rejeita a Palavra de Deus e busca imagens. A idolatria é a característica mais peculiar às religiões e povos que não não norteados pela Bíblia. Contudo, este é um perigo constante, até memo, para aqueles que são orientados pela Bíblia.

A Igreja Primitiva entendeu e obedeceu esta proibição, e não nos legou nenhuma descrição física de Jesus, muito menos uma imagem física. Mas, os apóstolos nos deixaram uma perfeita apresentação da Pessoa, Obra (especialmente a Obra Redentiva) e Ensino de Jesus, em Palavra Escrita.

Jesus ordenou a Santa Ceia, constituída dos elementos pão e vinho, significando seu sacrifício remidor; que juntamente com o Batismo são as únicas representações visíveis da Palavra, ordenadas para o culto. Observe-se também, que ambos substituem sacramentos com derramamento de sangue, do Antigo Testamento (Páscoa e Circuncisão). Mas, quando a Igreja se apostatou (abandonou a Palavra de Deus) adotou o Crucifixo – imagem da carne ensanguentada de Jesus. Entretanto, a Igreja foi ordenada a falar (pregar) do derramento do sangue de Cristo Jesus, para a salvação de pecadores; e até a mostrar isto no Batismo e Santa Ceia; porém nunca, em um Crucifixo.

Reconhecemos que há na Bíblia histórias extraordinárias para o Teatro e o Cinema; mas, isto não é da competência da Igreja. Compete à igreja anunciar o Evangelho em palavras (de modo escrito ou falado), e não por imagens. Assim, ela não cairá jamais em contradição com o Segundo Mandamento: "Não farás para ti imagens de escultura,…" (Dt 5.8-10).

O Crucifixo, uma imagem ilustrativa do sacrifício de Cristo, se transformou em um objeto de adoração. O Crucifixo "deu certo", ele é "um sucesso" é uma das mais importantes características e atrativos do culto católico romano. Não obstante, é uma abominação perante Deus. A hóstia "transubstanciou-se" e também tornou-se em objeto de adoração.

Existem formas grosseiras de idolatria, mas existem também formas sutís; e destas, é muito difícil alguém ser convencido. Geralmente, os cristãos que usam imagens de escultura não admitem que estejam praticando idolatria. A idolatria não se manifesta imediatamente de forma constante e generalizada. Ela tem um começo imperceptível que se repete e espalha.

A idolatria é tão severamente condenada porque ela produz a sensação de um contato direto com a divindade, ela satisfaz imediata e enganosamente. Assim, ela mantem as pessoas longe da Palavra de Deus. Distante da Palavra de Deus, o homem não pode conhecer a Deus. Ele só é capaz de conceber um ídolo em seu coração, construído pela revelação natural distorcida pelo pecado.

Para quantos católicos e protestantes o filme "A Paixão de Cristo" não tem se tornado uma forma de idolátrica de culto? Creio que todos aqueles que alimentam a expectativa e dizem estar recebendo através do filme as graças prometidas no Evangelho, e também aqueles que, assistindo o filme, estão confundindo emoções com operações do Espírito Santo, deveriam refletir seriamente sobre esta situação. Entre a idolatria grosseira e o culto verdadeiro existe uma delicada intersecção, e os que nela estão não conseguem perceber.

Se recusamos os Meios de Graça, ou se eles nos são recusados, tendemos a substituí-los por alguma coisa que, ou não nos satisfará plena e verdadeiramente, ou nos destruirá (como é o caso da idolatria). Para quantas pessoas o filme de Gibson não estará funcionando como um substituto ao Meio de Graça? Para muitos ele poderá exercer o efeito de um Crucifixo, um Super Crucifixo animado.

A presente geração de cristãos, inclusive de evangélicos, conhece a Jesus Cristo menos do que deveria; porque muitos não têm recebido a sólida, sistemática e expositiva Pregação das Escrituras. Onde faltam as "palavras de vida eterna" , as pessoas se tornam ávidas por imagens e se tornam presas fáceis da idolatria.

O Filme "A Paixão de Cristo" é um meio de expressão entre Mel Gibson, juntamente com seus atores, e os que assistem ao filme; e nunca passará disto. Portanto, ninguém deveria esperar do filme que ele seja um meio de comunicação entre Deus e o homem. Isto pode ser um passo rumo à idolatria. Mas, a Palavra de Deus lida e pregada, os sacramentos ordenados por Deus em Sua Palavra, e a oração, que é nossa obediente resposta à Palavra de Deus; estes sim, são os meios da graça salvadora.

Contudo, enquanto a Palavra lida e pregada estiver em baixa na Igreja, a fiel administração dos sacramentos e a pura oração (porque existe a oração impura como a oração vaidosa, egocêntrica, futil etc.), também estarão em baixa. Neste contexto a Igreja continuará buscando e promovendo meios diversos para suprir a sua necessidade de animação. E, de vez em quando, necessitará até, aproveitar uma "ajudinha" de Hollywood.

ATENÇÃO!!

EXISTE A SEGUIR UM ESPAÇO EM BRANCO… A SEGUIR A ELE HÁ INFORMAÇÃO VITAL PARA SI!!!

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About EL HINCHA Mag Cal Cauvin Calvinista Inclusivo

Protestante por consciência calvinista e zuingliana, um teísta remanescente (cristão integrado na Oholyáo de YÁOHU UL) antinominiano ecuménico e inclusivo (agostiniano, espiritualidade carmelita dos descalços, espiritualidade montfortina, espiritualidade dos presbiteranos liberais da PCUSA: http://www.pcusa.org/, cristianismo redivivo; atento às notícias da ciência hodierna, sempre numa perspectiva inclusiva de todos os Yaoshorulitas e demais seres relacionais) por a absoluta graça do Soberano YÁOHU UL da História e da legenda. Protestante reformado (Baptista particular), cheunguiano (Vincent Cheung, vide: http://robertovargas-make.blogspot.com/2010/08/da-interpretacao-de-textos.html), pós-milenista bíblico, preterista parcial, reconstrucionista(herancareformada.blogspot.com/ 2010/02/o-teonomismo-implicacoes-teologicas.html), teonomista (dominionista), pressuposicionalista, supralapsariano (http://www.monergismo.com/textos/predestinacao/infra_supra_phil.htm), tudo em desenvolvimento; reformar sempre a reformar. Sempre a reformar.

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