HEMEROTECA DA VIDA

Culto PIBSCS 17/07/2011 from Primeira Igreja Batista de São [Caetano do Sul, Estado de São Paulo Brasil, localizado »» in the Greater São Paulo Metropolitan Area] on Vimeo.
NOTA DE DESAGRAVO À IGREJA CATÓLICA ROMANALUIS MAGARINHOS IGREJAS
Sobre a origem e significado das palavras Portugal e Galiza.

«As palavras, como os pássaros, voam sobre as fronteiras políticas»
DANIEL R. CASTELÃO (1886-1950)
Da fala e da escrita, Galiza Editora, 1983, p. 79
LUIS MAGARINHOS IGREJAS. FEVEREIRO DE 2005. Nenhum país com aspirações e vontade de ser no campo da modernidade, pode construir um futuro com auto-estima e dignidade suficiente se não assume com honestidade e valentia intelectual os verdadeiros pilares que sustentam a sua identidade colectiva e as suas próprias origens como povo. Por isto é que hoje sabemos, portugueses e galegos, galegas e portuguesas, que somos partilhadores duma identidade cultural e linguística que nos define unitariamente. Muitos de nós, aceitamos já com poucas reservas, o facto de Portugal e Galiza terem em comum um passado histórico e proto-histórico conjunto, uma realidade geográfica e geológica própria e uma língua de influências milenárias que teimosamente segue sendo hoje a mesma. Alguns, conheciam as nossas características etnológicas e antropológicas ou o existencialismo saudoso que ontológica e diferencialmente nos define.Imagem do Porto desde a Serra do Pilar (Gaia)Mas, poucos sabiam (ou sabíamos), que a ligação galego-portuguesa, a ligação portugalega, ultrapassa estes elementos, que, de facto, seriam mais do que suficientes para tirarmos conclusões sobre nós mesmos e o nosso hipotético futuro como colectividade histórica. Mas, há algo mais, uma outra ligação que emerge por acima das fronteiras arbitrárias e invisíveis, e que torna mesmo inquebrantável tudo o anterior.Uma ligação que tem a ver mesmo com a origem e significado das denominações que os nossos povos têm recebido no decorrer histórico. Tem a ver com a origem e significado das palavras Portugal e Galiza.

Cale vs. Gal, ou a procura das origens.Uma primeira olhada leiga sob as palavras PortuGal e Galiza, permite-nos perceber de imediato a existência dum radical Gal contido nos dois vocábulos. O que de imediato nos faz, pelo menos intuir, algum tipo de ligação etimológica entre as duas denominações. Aliás, a forma Gal, não é mais do que uma derivação latina do radical indo-europeu Cale (Calem segundo as fontes).

A origem da palavra Galiza (Calécia, Gallaecia), tem a ver precisamente com o radical Cale. Concretamente, com o localizado numa das áreas onde hoje se encontra a cidade do Porto. Mas, antes de abordarmos essa questão, seria bom aproximarmo-nos a algumas das analises que sobre a etimologia e origem linguística Cale se têm realizado.

Hoje sabemos, que a forma Cale, esteve e está, muito presente ao longo de toda a geografia europeia. Especialmente nas áreas geográficas onde perviviu ou pervive um substrato linguístico celta [1] (ainda que se tem registrado também em outras línguas indo-europeias como o eslavo ou o albanês). Daí, por exemplo, que na Europa Atlântica (e não só) tenhamos encontrado denominações como Galia, Calais, Gales, Galatia, Gaia, Galiza ou PortuGal. Palavras, sob as quais, uma simples olhada, dá para ver que é o que têm em comum em relação à raiz Cale/Gal.

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Culto Noturno da Primeira Igreja Batista de Sao Caetano do Sul Pregador: Pr. Sebastiao C. Neto Mensagem: Seja Forte e Corajoso
Culto Noturno da Primeira Igreja Batista de Sao Caetano do Sul. Pregador: Pastor Sebastiao C. Neto. 10/07/2011
Culto noturno da Primeira Igreja Batista de São Caetano do Sul Pregador: Pastor Sebastião C. Netto – 3 julho 2011Culto PIBSCS 26/06/2011

Culto PIBSCS 19/06/2011
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Estes povos proto-históricos partilhavam uma língua comum indo-europeia que alguns autores (Fuco O´Soer) relacionam com o goidelico, ainda existindo diversas ramas dentro dela, como seriam a gaelica (Irlanda, Escócia…), britônica (Cornualhes, Gales, Bretanha) e a galaico-lusitana (Galiza e Portugal). Esta última, virá logo a misturar-se com o latim após a ocupação romana.

Mas, o que nos atinge agora, é tentar sabermos qual é a origem exacta e significado de Cale dentro do corpus linguístico celta do que é originário. Para Fuco O´Soer a origem do termo (que logo dará lugar à forma latinizada Gallaecia) parte da Deusa mãe dos celtas Cal-leach, pois, segundo ele, era costume romana na altura nomear aos povos conquistados pelo denominação dos seus deuses. Isto dá, para lembrar-nos, que o nascimento da Calécia/Gallaecia como entidade política, produziu-se após a batalha do Douro e a posterior conquista romana. Para este autor, os celtas do Douro, virão a ser os Cal-laic-us (Calaicos) ou filhos da Deusa mãe dos celtas Cal-leach. Cuja referencia se tem encontrado numa inscrição na forma de Calaic-ia no lugar de Sobreira, perto do Porto.

Uma outra analise do radical Cale no âmbito das línguas célticas: Palomar Lapesa (1957) e Alberto Firmat (1966), liga este com o significado de «pedra», «rochedo», «duro», cuja expressão se adequa com rigor às características geológicas e graníticas da cidade, nomeadamente do morro da Sé. [2]

Para Higino Martins (1990) o vocábulo pré-indo-europeu Kala, definido como «abrigo», «refúgio», passou à língua celta sob a forma Cale e com significação de «terra», «montanha». Para ele, o etónimo Calaico/a viria então a denominar ao «da terra», ao «do lugar». [3]

Outras interpretações, menos consistentes desde o nosso ponto de vista, ligam a origem de Cale (vs Gal) com os galos ou gálatas. E mesmo há autores que atribuem a fundação de Cale, a uma expedição de galos chegados às terras do Douro através da Lusitânia. Mencionarmos também aos que como Pedro de Valdés ligam a origem da palavra com vocábulo grego Kalos, «fermoso», daí que Calécia significasse para este autor «coisa fermosa». [4]

Cale e o nascimento da Galiza (Calécia/Gallaecia).

Segundo múltiplas interpretações, entre as que sugerimos destacar as de Mendes Corrêa (1933), A. Tranoy (1981) e Coelho da Silva (2000), a origem do nome da Galiza (Calécia/Gallaecia) dado pelos romanos (reforma de Diocleciano 284-288 d.C.) ao território político-cultural enquadrado no Noroeste penínsular, delimitado com a Lusitânia pelo rio Douro, é um caso de apropriação onomástica a partires dum topónimo que nomeava apenas o povoamento proto-histórico ou castro de Cale, localizado na área que compreende o Morro da Sé e o monte da Cividade do que hoje é a cidade do Porto. Lugar onde se estabelece a localização originária do primeiro povoamento humano que se tem registrado na cidade.

Carta do Porto Pre e Proto Histórico

A existência do castro ou cívitas de Cale, transmitido até os nossos dias pelas fontes clássicas (C. Plínio), permite-nos afirmar (concordando neste ponto com as interpretações de quase todos os autores que têm estudado esta questão), que este topónimo, deu nome ao etónimo Calaicos/as (habitantes de Cale), tribo que, além de distribuir-se em vários povoados proto-históricos nos arredores do que hoje é a cidade e a foz do Douro (Sanfins, Penafiel ou Vila Chã), contavam com um lugar de importância capital, devido ao valor estratégico na encruzilhada de caminhos, que na altura, vinha a supor o lugar onde hoje se encontra Morro da Sé e o monte da Cividade do Porto. C. Plinio, que definiria aos habitantes de Cale como Caleci/Galaicos, fez distinção entre estes, e os Lusitanos do sul do Douro.Mendes Corrêa aposta por localizar o monte da Cividade (e o povoado de Cale) no outeiro enquadrado entre a Batalha e o lugar onde se hoje se encontra estação de São Bento junto com as ruas adjacentes (Cimo de Vila e da Madeira) que ligam esta área com o Morro da Sé.Há autores que se têm decidido por localizar a cívitas/castro de Cale, e posteriormente o seu porto (Portu Cale), na margem esquerda, na margem sul, do Douro; no que hoje é Vila Nova de Gaia, mas, uma leitura sossegada das teses de uma e outra opção, leva-nos a aceitar que o Cale original só tem podido localizar-se na margem direita do rio.

Para Leite de Vasconcelos, a mais antiga referência a Cale, é a feita por Salústio no S. I a.C. Na qual se indica claramente, Cale ser uma cidade da Calécia, «cívitas in Gallaecia». Ora, a Calécia, como já foi dito, situava-se ao norte do Douro. [5] Mesmo também Vergílio Correia identifica a cidade de Cale com o convento dos Brácaros, ao norte do Douro. [6]

Segundo o que acabamos de afirmar, seria bom aclararmos mais uma vez como aponta Manuel de Sousa (2004), que o facto dos romanos terem dado o nome de Calécia/Gallaecia a todo o noroeste da Península Ibérica como uma das suas delimitações político-administrativas (neste caso o último e mais resistente território a ser conquistado), [7] não quer dizer, como já comentámos, que toda ela fosse habitada pelos Calaicos. Pois na altura (S. I a.C.), existiam diversas tribos, que, mesmo partilhando um substrato étnico-cultural e um habitat comum, localizavam-se em diferentes populi em todo o noroeste.

Além dos Calaicos, as fontes escritas e arqueológicas, transmitiram-nos constância de muitas outras agrupações tribais, que, como os Gróvios (Baixo Minho), Ártabros (Artábria, ou área da actual cidade da Corunha e Ferrol), Célticos (Bergantinhos), Poemanos (Lugo), Brácaros (Braga), Caporos (Íria Flavia) ou os Quarquernos (Serra dos Gerês) entre outros, distribuíam-se em pequenas cívitas por toda a área do que logo virá a ser a Gallaecia. Mas só um desses populi, o de Cale, teria a sorte de erigir-se em topónimo fundador, e converter-se posteriormente, no nome da actual Galiza.

O porto de Cale: Portu Cale.

Segundo aponta Coelho da Silva (2000) a «justaposição natural da cívitas [ou castro] de Cale e o seu porto, portus, poderão justificar a primeira referencia a Portu Cale», [8] datada na segunda metade do século V d.C. e transmitida pelo Chronicon de Idácio. Um Portu Cale que nos atrevemos a localizar, quase com toda seguridade, ao pé da margem norte do Douro, no que logo virá a ser Ribeira do Porto.

Idácio, o cronista e bispo de Chaves (falecido em 472 d.C.), afirma textualmente Portu Cale estar situado «ad extremas sedes Gallaeciae» (na extrema da Gallaecia), que como se sabe, estando separada da Lusitânia pelo rio Douro, «Fluvius Dourus dividens… Gallaecia et Lusitania…» (Julius Honorius), exclui claramente qualquer hipótese de localização desse sitio na margem esquerda do rio.

Localização de Cale (Galiza) e Portu Cale (Portugal) no plano actual da cidade do Porto.Mendes Corrêa (1933) escreve que «havia uns 500 ou 600 metros a percorrer [desde Cale] até o Douro pela via natural de trânsito, nas margens do [afluente] Rio da Vila». [9] Para o grande arqueólogo portuense, o vale que se vinha a conformar desde a Sé e o monte da Cividade, até a beira do rio (o que hoje seria as rua das Flores e Mouzinho da Silveira), ligaria Cale com o seu porto na margem norte do Douro, estabelecendo-se Portu Cale, já na época romana (daí a origem latina do radical inicial da palavra), como porto de serventia para Cale.

Chegados a este ponto não faz sentido, como já afirmamos, que o porto de Cale se situasse do outro lado do rio, no castelo de Gaia, pois, o trajecto natural desde Cale até o Douro, vinha a encorajar-se através do vale marcado pelo rio da Vila até a actual Ribeira da cidade. «A Ribeira era o cais natural da Cividade sobre o Douro», [10] afirma Mendes Corrêa (1933). Portu Cale virá a nascer então como uma derivação natural das actividades de Cale para a beira do rio. Pois, era este, o processo geral da «pax romana»: o abandono dos lugares altos e abruptos dos habitats castrejo/celtas, e a migração para os vales, planícies e terras baixas.

Por isto é que só a partires do século V d.C. que começa a deixar de se falar de Cale como tal, e se iniciam as primeiras referências ao «porto de Cale» (Portu Cale). [11] Topónimo que teria a sorte de erigir-se em nome do actual Portugal, como séculos antes, o Cale de Portu Cale, dera nome à Galiza.

Portugaliza e o futuro.O professor Armando Coelho tem sinalado recentemente que Portugal não pode ficar com uma história política que só é conhecida a partir dos limites do actual Estado: «há informações em termos de pervivencias que não são inteligíveis se nós fizermos a nossa história só até o começo da nossa nacionalidade ou até o começo da era romana. Temos que ir mais para trás». [12] Afirmação com a que coincide David Santos Araújo quando disse que «Portugal não precisa procurar as suas origens num caldo nubloso e confuso onde todas as conjecturas são possíveis». [13]

Por isto mesmo, e apelando ao respeito histórico, faz-se necessária a crítica do mito lusitanista que se tem erigido como grande conformador da identidade portuguesa até os nossos dias, mito que em certa medida, continua a reproduzir-se na actualidade no país.

Hoje sabemos com claridade, que o norte de Portugal; o território compreendido entre os rios Minho e Douro, nunca fez parte de nenhum marco histórico ou político lusitano, no entanto sim galaico, o que não quer dizer que estejamos a estabelecer fronteiras onde não as houve. Mas sim podemos tentar recuperar a veracidade histórica a esse respeito.

No ano 1998 celebrou-se em Portugal o referendo pela regionalização, onde por escassa margem, ganhou a opção que advogava pela continuidade centralista. Mas hoje, quanto já têm transcorrido uns quantos anos desde essa cita; são de novo, numerosas as vozes, que reclamam com força a necessidade de recuperar e implementar a ideia da regionalização. O mal-estar nas periferias, nomeadamente no norte, não deixa de acrescentar-se cada dia, agravado pelos desequilíbrios territoriais que o modelo actual tem propugnado.



Notas:
[1] Para Jean Markale (ABCdario dos Celtas. Ed. Público-Flammarion. Paris-Lisboa (2001) p.83) as palavras e o léxico nas línguas celtas acostumam a ter três ou mais sentidos, o que favorece o pensamento analógico, permitindo ao mesmo tempo interpretar uma única palavra de formas diferentes. Para ele, esta é uma característica essencial da cultura Celta, onde o bem e o mau, o natural e o sobrenatural, o animal e o vegetal, se encontram sempre misturados de forma pouco maniqueísta. Um exemplo é a palavra gwern que virá a significar ao mesmo tempo ana [medida antiga equivalente a uma vara], mastro e pântano. O próprio deus Lug poderia designar o corvo, a luz ou a brancura. E a deusa mãe dos Celtas Cal-leach, que para Fuco O´Soer está na origem do radical Cale, vem a ser ao mesmo tempo deusa mãe, deusa de fertilidade e deusa da guerra. Na defesa desta ideia Celta não maniqueísta da espiritualidade religiosa, o próprio mártir galego Prisciliano foi assassinado (e segundo muitos enterrado na Catedral de Compostela no lugar do apostolo Santiago) no S. IV d.C.

[2] Coelho da Silva, Armado. “Origens do Porto” em História do Porto. Ed. Porto Editora. Porto. (2000) p. 90

[3] Martins, Higino. “Ua Céltica chamada Kalláikia” em relatórios do III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza. Ourense. Vigo. (1990)

[4] Pereira González, Fernando. “Primeiras referencias aos celtas na historiografia galega” em Revista Gallaecia. Ed. do Castro (2003) pp. 441-469

[5] Leite de Vasconcelos. Religiões da Lusitânia. Vol. 2. Lisboa (1905) p.20

[6] Vergilio Correia. “O domínio Romano”, em História de Portugal do Prof. Damião Peres. t.I. Barcelos (1928) p.244

[7] O primeiro romano em aproximar-se até a (ainda lusitana) margem sul do rio Douro por volta do 138 a.C. (Ovidio, o grande poeta romano, atreve-se incluso a datar a o brutal enfrentamento entre Calaicos e Romanos no 9 de Junho do 138 a.C.) foi o consul Decimo Júnio Bruto. Lugar, onde (segundo as fontes) se produz a sangrenta batalha do Douro contra os Calaicos/as desplazados a terras lusitanas para ajuda-los na sua luta contra a ocupação romana, o qual permitiu logo às tropas de Bruto atravessar o Douro e entrar nos territórios de Cale. Paulo Osorio (V.5.25) não sinala expressamente o lugar onde mais de 60 mil Calaicos/as resistiram até a morte a ocupação das tropas invasoras, mas disse que «os/as calaicos/as em número de 60 mil, acudiram em auxilio das/os lusitanas/os o que motivou a penetração romana na Gallaecia [no território de Cale]» Este apontamento, também prova as boas relações existentes na altura entre Calaicos e Lusitanos. Segundo Estrabão, os calaicos, para atravessar o Douro, usavam barcos de couro.Decimo Júnio Bruto virá logo a escolher em Roma para ele mesmo o alcume de Calaico pela feroz resistência deste povo. O próprio Apiano (Iber. 74-75) descreve a expedição e resistência dos/as Calaicos/as nos seguintes termos: «e atravessando o Douro, decorreu, combatendo, muitas terras… Este é um povo… e também lutam com eles as mulheres armadas, e morrem com galhardia, sem que ninguém retroceda, nem volte as costas, nem emita nenhum lamento. De quantas mulheres eram apressadas, umas voltavam as suas mãos contra si, outras degolavam aos seus próprios filhos, preferindo a morte à escravidão».

[8] Coelho da Silva, Armado. “Origens do Porto” em História do Porto. Ed. Porto Editora. Porto. (2000) p. 90

[9] Mendes Corrêa, A.A. “Cale, Portucale e Porto” em Arquivos do Seminário de Estudos Galegos. Número IV. Compostela. (1933) p.203

[10] Op. Cit. p. 203

[11] Só apenas no S. VII d.C. o cosmógrafo de Ravena menciona a área sob o nome de Calo.

[12] Público. Edição Porto. 13 de Setembro de 2004. p.46

[13] Santos Araújo, Jose David. Portugal e Galiza: Encantos e encontros. Ed. Laiovento, Compostela. (2004) p. 72

Nota sobre o/a autor/a:
Luís Magarinhos Igrejas, é investigador.


O QUE É O ANGLO – CATOLICISMO?



Rev. Pe. Rodson Ricardo[1]
E – mail: revrodson@hotmail.com
Anglo-católico? Liberal? Evangélico?




 Vamos falar de uma igreja paroquial fortemente ligada à Tradição Católica Anglicana. E que acolhe as contribuições de outras tendências. Esta descrição é a que a que melhor define a identidade espiritual que procuro aludir. Esta tradição é muitas vezes descrita como “anglo-católica” (em oposição a católico-romano) ou “Igreja Alta”, termo pelo qual também é conhecida em outros países. Mas o que significa tudo isso?
Os termos “anglo-católico” e “anglo-catolicismo” descrevem pessoas, crenças e práticas dentro do anglicanismo que afirmam os aspectos católicos, ao invés dos protestantes ou liberais/modernistas. Tais diferenças surgiram no decorrer dos séculos e é parte da história e do patrimônio comum do anglicanismo.
Diferenças de perspectivas
Dentro do anglicanismo, especialmente na Igreja da Inglaterra e nos Estados Unidos, vários termos são usados com frequência – e às vezes de forma inconsistente – para designar as três principais tendências eclesiológicas anglicana: a “High Church”, ou “Igreja alta”; a “Low Church”, ou “Igreja baixa” e a “Brow Church” ou “Igreja larga”.
a) “Igreja Alta” é geralmente usada para descrever aquelas formas de anglicanismo influenciadas, em maior ou menor medida, pela tradição católica. O Anglo-catolicismo é frequentemente identificado com esta variedade de organização e espiritualidade;
b) “Igreja Baixa” geralmente refere-se àquelas formas de anglicanismo mais influenciadas pela tradição protestante. Entre elas podemos citar o primado absoluto das Escrituras, a salvação unicamente pela fé etc. Além disso, as “igrejas baixas”, embora mantenham o uso do Livro de Oração Comum, preferem formas menos organizadas de liturgia;
c) “Igreja Larga” é geralmente associada àquelas formas de anglicanismo que, ficando entre o “alto” e o “baixo”, enfatizam as adequações culturais e o primado da razão na vida da Igreja.
História da Tradição Católica
Uma das principais características do Anglo-catolicismo é a afirmação da continuidade essencial do anglicanismo com os primórdios do Cristianismo na Grã-Bretanha. Neste sentido suas origens encontram-se anterior inclusive a decisão do Papa Gregório Magno (590-604) de enviar Santo Agostinho de Cantuária (610) e os seus monges, no século VI, para re – evangelizar os anglo-saxões, um processo praticamente concluído no século VII. Há, portanto, um reconhecimento da influência celta e monástica como parte importante do que é o anglicanismo. Neste sentido o anglo – catolicismo nega que o anglicanismo seja um produto exclusivo da Reforma Protestante do Século XVIII.
Quando a Reforma Protestante eclodiu na Europa, os seus efeitos chegaram à Inglaterra. Por caminhos tortuosos o Rei Henrique VIII (1491-1597) levou a Inglaterra a um cisma com Roma quando o Papa se recusou a declarar nulo o seu casamento com Catarina de Aragão. Apesar disso, Henrique manteve-se ortodoxo em teologia e liturgia, enquanto alguns reformistas (como o Bispo John Hooper) queriam seguir as reformas radicais de Genebra. Esse é um aspecto importante na história da Reforma Inglesa.
Além disso, todas as reformas foram suspensas, brevemente, durante o reinado da profundamente católica, Maria I (de 1516 a 1558), filha de Catarina de Aragão (1485-1536), que retomou a comunhão com Roma, como parte de uma campanha geral para acabar com a influência das idéias da Reforma na Inglaterra e no País de Gales. Esses conflitos políticos – religiosos acarretaram grande dor e sofrimento ao povo inglês, ameaçando inclusive a sobrevivência da Nação.
Consequentemente, quando a rainha Elizabeth I subiu ao trono Inglês, ela procurou seguir uma “via – média” entre o que ela, que ela teologicamente ortodoxa, imaginou ser o desejado entre os excessos de “Roma” (catolicismo) e “Genebra” (protestantismo). Assim nasceu a o “pacto elisabetano” e a promulgação de um único Livro de Oração Comum e de todas as convicções teológicas na Igreja da Inglaterra e, posteriormente, na Comunhão Anglicana. Isto marca o nascimento do “ethos anglicano” que foi defendida com profundidade pelo primeiro teólogo anglicano: Richard Hooker.
Toda a metodologia teológica anglicana estrutura-se a partir do tripé de Hooker: Escritura – Tradição – Razão. O Rev. Richard Hooker viveu entre 1553-1600, em Londres. Ele foi ordenado na Igreja da Inglaterra e, posteriormente, nomeado pela rainha Elizabeth I como Mestre do Templo, tornando-o capelão da “Inns of Court”, uma parte fundamental do sistema de ensino jurídico Inglês. Depois de dez anos ele se mudou para uma paróquia perto de Canterbury, onde, nos restantes cinco anos da sua vida, ele conseguiu pôr em marcha a sua Magnum Opus “As Leis da Política Eclesiástica”. Esta obra marcou profundamente o pensamento inglês, influenciado inclusive o surgimento do liberalismo de John Locke (1632-1704) que a cita diversas vezes. A obra de Hooker foi a primeira defesa sistemática da doutrina da Igreja da Inglaterra após a separação com Roma e por isso ele é considerado o primeiro grande teólogo anglicano. Até mesmo o Papa Clemente VIII (1536-1605) ficou impressionado com o seu trabalho.
A obra de Hooker é amplamente reconhecida por afirmar que a teologia anglicana é baseada na “Escritura, Tradição e Razão”, indo tão longe a ponto de criar uma analogia com um “banquinho de três pernas”. É claro que alguns podem dizer que uma metáfora melhor seria a tentativa de tentar equilibrar três bolas ao mesmo tempo. O malabarismo é complicado pelo fato de que, dependendo do teólogo, uma das bolas é geralmente maior do que as outras. Esta é a origem das correntes anglicanas. Os Evangélicos valorizam as Escrituras do que a Razão ou a Tradição. Os Liberais enfatizam a Razão e os Católicos a Tradição, por entenderem que nela está implícita as Sagradas Escrituras como norma final e o correto uso da razão.
Há um longo rio católico no anglicanismo que partindo do testemunho do Arcebispo William Laud (1573-1645), martirizado pela defesa do anglicanismo, passando pela riqueza das obras do “teólogos Carolinos”[2], unindo-se ao “Movimento de Oxford”, deságua nos movimentos católicos dos dias atuais. Como característica desse movimento a defesa do caráter apostólico e ortodoxo da Igreja, num processo de ligação ininterrupta com os Doze Apóstolos.
Assim, em resposta ao Papa Leão XIII (1810-1903), que com a Bula Apostolicae Curae (1896), declarou inválida a sucessão apostólica anglicana sobre a perspectiva do Vaticano, os Arcebispos anglicanos de Cantuária e York imitiram uma resposta oficial, a Saepius Officio, mostrando que existe uma clara sucessão apostólica ininterrupta no sacerdócio anglicano e que o Episcopado histórico foi mantido nas ilhas britânicas desde os primeiros dias da Igreja, não tendo sido alterado nem mesmo durante os piores momentos da revolução protestante.
O Movimento de Oxford
Como um movimento identificável dentro do Anglicanismo moderno, o Anglo – Catolicismo originou-se entre um grupo de presbíteros e professores da Universidade de Oxford em 1830. Os três líderes mais conhecidos do chamado “Movimento de Oxford” foram: John Keble (1792-1866) Henry Newman (1801-1890) e Edward Jonh Pusey (1800-1882).
O movimento começou em 1833 como uma forma de protesto contra a interferência política do parlamento nos assuntos internos da igreja da Inglaterra. Em 14 de julho de 1843 Keble pregou o famoso sermão “A Apostasia Nacional” na igreja de Santa Maria, a Virgem, no interior da Universidade de Oxford.
Logo após este acontecimento, Keble, Newman, Pusey, e outros começaram a publicar a série de panfletos chamados de Tratados para os nossos tempos. Os membros do movimento tornaram-se assim conhecidos como “os Tractarianos”.
Diferentes visões sobre a igreja
A pergunta central feita inicialmente pelo Movimento de Oxford, dizia respeito à natureza da Igreja. Havia duas formas de pensar a igreja naquela época: como uma instituição simplesmente humana ou como uma instituição essencialmente espiritual e invisível.
A grande realização do Movimento de Oxford deve-se a recuperação de uma terceira visão, solidamente enraizada nas Escrituras e nos Pais da Igreja, que vê a Igreja Santa, Católica e Apostólica como uma sociedade divina visível, fundada pelo próprio Cristo para levar adiante sua missão na terra até o fim dos tempos.
O Tratactarianismo enfatizou que Cristo delegou a autoridade eclesiástica aos seus apóstolos, e seus sucessores, os bispos. Assim, uma marca essencial da igreja católica é a presença das três ordens: bispo, presbítero e diácono, em sucessão apostólica. A Igreja Católica é encontrada, na sua completude, naquelas denominações que historicamente mantiveram a sucessão apostólica e que professam à fé dos credos e dos grandes concílios ecumênicos. Por este critério, as três “grandes famílias católicas” são: a anglicana, a romana e a ortodoxa.
A restauração da liturgia
Às vezes, os visitantes católicos romanos observam como é similar o nosso culto ao deles (na verdade, como o deles se tornou similar ao nosso!). Mas o nosso estilo da adoração não é simplesmente uma imitação das práticas romanas. Ao contrário, a liturgia anglo – católica tem a sua própria história e tradição. De onde, veio e como se formou, então, esta tradição?
A nossa adoração não foi sempre do jeito que vocês vêem agora. Se você entrasse numa paróquia da igreja anglicana há dois séculos atrás você encontraria provavelmente apenas uma Oração Matutina consistindo a liturgia. O oficiante não usaria nenhuma vestimenta litúrgica à exceção de uma simples batina preta. O ponto alto do culto seria o sermão, que poderia durar mais de uma hora. O templo da igreja seria “totalmente nu”, sem nenhum vitral, retratos ou imagens.
Os líderes do movimento de Oxford recuperaram o valor da Liturgia e dos Sacramentos como verdadeiros meios de graça pela qual os adoradores poderiam experimentar a beleza da santidade divina e serem trazidos à presença transformadora de Deus. Os anglo-católicos começaram a regressar a antigas formas de adoração, num processo gradual de redescoberta do estilo de culto existente na igreja pré – reformada, nos períodos patrístico e medieval.
Paulatinamente foram sendo re-introduzidas as tradições e práticas anteriores a Reforma: os altares voltaram a ser adornados com cruzes, velas e frontais; os padres retornaram o uso das casulas e os diáconos da dalmática; a eucaristia passou a ser celebrada pelo menos aos domingos e, em alguns lugares, todos os dias. O incenso, os sinos começarão a ser utilizados na abertura dos ofícios; com coros e leigos paramentados participando do processional, com tocheiros e cruciferários. A água benta e o incenso voltaram a ter função litúrgica. Os elementos consagrados, reservados para a comunhão dos doentes, passaram a ser guardados em local especial (sacrário ou tabernáculo).
A prática da confissão individual foi restabelecida; as orações pelos mortos e as invocações aos santos voltaram a serem realizadas durante a adoração pública. A Virgem Maria teve a sua importância recuperada, purificada dos excessos do catolicismo medieval e do radicalismo dos reformadores.
Cisões no Movimento Católico
Pelo menos desde a década de 1970, o Anglo – catolicismo tem sido dividido em dois campos distintos, ao longo de uma linha simbólica, que talvez possa ser rastreada até o século XIX, com a obra do bispo e teólogo Charles Gore (1853-1932).
O Movimento de Oxford tinha sido inspirado em primeiro lugar por uma rejeição do liberalismo teológico e do latitudinarianismo eclesial em favor da fé tradicional da “Igreja Católica Indivisa”, definida pelos ensinamentos dos Padres da Igreja e as doutrinas comuns da história ocidental e oriental igrejas cristãs durante os cinco primeiros séculos.
Até a década de 1970, portanto, a maioria dos anglo-católicos rejeitava os pressupostos teológicos e políticos dos modernistas, como o racionalismo, a negação dos milagres bíblicos, o acesso das sagradas ordem às mulheres etc. Além disso, os anglo-católicos, mesmo trabalhando com os pobres e marginalizados, viam com suspeita os partidos socialistas e revolucionários. Tudo isso mudaria com a publicação dos escritos de Charles Gore em 1890.
Gore havia sido formado no mais ortodoxo anglo-catolicismo e ela visto como um dos seus mais brilhantes teólogos. Por isso a publicação, sob sua direção, de uma serie de ensaios intitulada Lux Mundi deixou anglo-católicos, liberais e protestantes abismados. Na verdade, Gore fez um verdadeiro esforço para harmonizar a fé cristã com o mundo moderno, nos seus aspectos científicos, históricos, culturais, políticos e éticos. Para isso, precisou, no entanto, “relativizar” questões centrais como a Inspiração das escrituras e a validade dos Pais da Igreja. Dois aspectos merecem destaque: sua cristologia baixa, centrada na idéia de um radical e irrecuperável “rebaixamento” de Deus em Cristo (Kesosis) e sua ligação com o movimento socialista. Estava consolidado o surgimento do que antes era impensável: “um catolicismo liberal”.
A consequência disto é que o catolicismo encontra-se dividido: alguns enfatizando o primeiro termo e outros o segundo. No primeiro caso temos o que chamamos de “tradicionalista anglo-católico”, formado por aqueles que procuram manter a tradição e a doutrina anglicana em linha com o da Igreja Indivisa, priorizando as igrejas Católica Romana e Ortodoxas orientais. Assim temas como a ordenação de sacerdotisas e bispas e de homossexuais praticantes são vistos como incompatíveis com a fé católica. Por isso costumam se aliar com os evangélicos para defender os ensinamentos tradicionais sobre moralidade e fé. A principal organização anglicana a que se encontram filiados é a “Seguindo na fé”, presente principalmente na Europa e nos estados Unidos.
O trabalho de Gore, no entanto, que ostenta a marca do protestantismo liberal, abriu o caminho para uma forma “alternativa” de anglo-catolicismo. Assim, nos últimos anos, muitos anglo-católicos aceitaram a ordenação de mulheres ao presbiterato e episcopado, o uso da “linguagem inclusiva“ nas traduções da Bíblia e da liturgia e atitudes “inclusivas” em relação à homossexualidade, chegando inclusive a defenderem a ordenação de clérigos monogâmicos. Além disso, defendem inexistir uma real diferença entre católicos, protestantes ou liberais. Esses segmentos geralmente se referem a si mesmos como “católicos liberais” ou “progressistas”. A principal organização que os representa é o “afirmando o catolicismo” e a “sociedade para os padres católicos” do atual Arcebispo de Cantuária, Rowan Willimas.
Há ainda uma terceira vertente, embora insipiente. Trata-se de uma “via média” entre os dois extremos do catolicismo atual. Seus representantes criticam tanto o liberalismo quanto o conservadorismo e buscam desenvolver as idéias de um movimento teológico do catolicismo romano do século XX: a Nouvelle Théologie do padre Henri de Lubac (1896-1991). O principal representante desse grupo é o teólogo inglês John Milbank. Os trabalhos de Milbank e outros dentro desta vertente têm sido fundamentais para a criação de um movimento ecumênico (embora predominantemente anglicano e Católico Romano), chamado de “Ortodoxia radical” que busca recuperar a relevância do pensamento cristão na cultura e na sociedade.
Existem também aqueles anglo-católicos que perderam a pensam que o processo de liberalização no anglicanismo já foi longe demais e que é incontrolável. Por isso deixaram a comunhão anglicana embora tenham permanecido fiéis a sua doutrina e liturgia: são os “anglicanos confessantes”. É o caso da “Comunhão Anglicana Tradicional” – TAC, presente em quase todo o mundo, inclusive na América Latina e que se encontra num processo avançado de volta para o Catolicismo Romano.
No Brasil o anglo-catolicismo nunca teve de fato grande expressão. A única tentativa dissto foi feita pelo então Rev.Salomão Feraz (1880-1969), energicamente reprimida pelo episcopado da época. Os motivos para essa ausência de comunidades católicas foi o forte víeis protestante dos primeiros missionários episcopais e a hegemonia do liberalismo desde metade do século XX. Neste sentido o predomínio desta vertente acabou impedindo o surgimento de uma tradição realmente católica no país, gerando um estranho amálgama de protestantismo liberal e catolicismo da TL.
O ser católico
Uma questão que vêem sido debatida há séculos é qual a natureza precisa do catolicismo. Esse tema tem sido muito debatido inclusive no interior do anglo-catolicismo. De acordo com as Igrejas Ortodoxas Orientais e as Igrejas Orientais Ortodoxas, Anglo-católicos – juntamente com os Velho-católicos e luteranos episcopais – geralmente apelam para o “cânone” (ou regra) de São Vicente de Lerins (445): “Católico é aquilo que sempre crido, por todos em todos os lugares”.
Embora possam existir diferenças pontuais sobre o caráter do catolicismo os anglo-católicos o compreendem como a determinação positiva da essência mesma do cristianismo. Nas Palavras do teólogo Karl Adam (1876-1966) o catolicismo é “a afirmação integral dos valores, a abertura ao mundo no sentido mais englobante e mais nobre, o casamento da natureza com a graça, da arte com a religião, da ciência com a fé, a fim de que Deus seja tudo em todos”.
Neste sentido uma questão séria para os anglo-católicos é a interpretação e o valor dos “Trinta e Nove Artigos de Religião”, publicados no século XVII. É verdade que, neste documento histórico, é feita distinções entre anglicanos e católicos romanos sobre pontos importantes da doutrina. Não é, portanto de se estranhar que os setores evangélicos o utilizem como prova do “caráter protestante” da igreja. Duas coisas merecem destaque: em primeiro lugar não há em nenhum lugar dos Trinta e Nove artigos menção a palavra “protestante”. Além disso, esse documento não pode ser considerado uma espécie de “confissão de fé protestante” como foi a luterana e a reformada. Mais tão somente garantir a unidade espiritual da nação, livrando-a dos radicalismos de Roma (tridentinos) e Genebra (Puritanos).
Por isso os artigos foram intencionalmente escritos de tal forma a estarem abertos a uma variedade de interpretações tanto protestantes (arminianos e calvinistas) quanto católicas. Por tudo isso os anglo-católicos têm defendido as suas práticas e crenças são coerentes com seu espírito. No entanto, alguns acreditam que devido ao seu “tom áspero”, eles simplesmente deveriam ser suprimidos como fonte de doutrina, garantindo-lhes apenas a importância histórica, o que de fato acabou acontecendo na maioria das províncias da Comunhão Anglicana. É consenso inclusive entre os evangélicos que o “Quadrilátero de Lamberth” é a melhor síntese da unidade necessária a todas as tendências anglicanas.
O Quadrilátero tem servido de base dogmática para a unidade interna e externa de nossa Comunhão e afirma quatro crenças essenciais:
(1ª) A importância da Revelação profética. “Cremos que as Sagradas Escrituras contêm todas as coisas necessárias para a salvação”. Toda nossa doutrina e liturgia estão baseadas e fundamentadas na Bíblia: Cremos no Primeiro e no Segundo Testamento. Ao afirmarmos isso destacamos: a) a continuidade da nossa Igreja com a tradição profética semítica, a supremacia do texto bíblico sobre as autoridades humanas e a negação do enfoque fundamentalista bíblico;
(2ª) A continuidade Apostólica. “Os Credos Apostólico e Niceno – Escritos no tempo da igreja indivisa, constituem a confissão normativa da fé católica que preservamos ainda hoje”. Somos uma igreja histórica, herdeira de uma Tradição de 2000 anos. Consideramos-nos uma parte importante da Igreja de Cristo, mas não a sua totalidade;
(3ª) A realidade da graça divina. “A Igreja Anglicana professa o Batismo e a Eucaristia como legítimos sacramentos diretamente ordenados por Cristo, sendo eles sinais eficazes da graça e da boa vontade de Deus para conosco.” A Igreja Anglicana é uma igreja sacramental. Os sacramentos são sinais externos e visíveis de uma graça divina interna e espiritual. Os sacramentos expressam nossa crença na natureza sacramental do universo e da vida, significando que Deus está presente e atuante na criação em todos os seus aspectos. Para nós Cristo é o maior dos sacramentos. Há dois sacramentos principais: o Santo Batismo e a Santa Eucaristia e outros cinco, chamados também de sacramentos menores ou ritos sacramentais (Crisma, Ordem, Matrimônio Reconciliação e Unção dos Enfermos) que testemunham a presença divina em nossas vidas;
(4ª) A necessidade de uma comunidade de fé. “Professamos que a autoridade transmitida por Cristo aos apóstolos e por esses aos seus sucessores (incluindo nossos bispos) é, ao mesmo tempo, garantia e expressão da universalidade e apostolicidade da Igreja”. Para nós a fé não é uma atitude egoísta e solitária. A fé cristã se fundamenta no amor ao próximo e na vida em comunidade. Toda a comunidade precisa de líderes. Os nossos líderes são os bispos. Na Tradição Anglicana a autoridade é descrita como um círculo, onde o poder flui de fora para dentro. O nosso líder mundial é o 105º Arcebispo de Cantuária, sua Graça Rowan Williams, mas ele não tem autoridade legal fora da sua Província. Ele serve como guia espiritual e símbolo da unidade, e, embora, entendamos que seja necessário a existência de um primado universal, ele não é “nosso Papa”. Além disso, na nossa tradição os leigos também têm participação em todos os níveis das igrejas anglicanas: eles escolhem os seus bispos e padres e participam do dia a dia das suas comunidades. As mulheres também participam do ministério da igreja, podendo serem inclusive ordenadas ao diaconato na maioria das províncias.
Há um conceito importante para compreender o anglicanismo: inclusividade. Por exemplo, a questão da confissão sacramental particular. Embora os sacerdotes anglo-católicos incentivem e pratiquem estes atos nas suas comunidades, como fazem os seus irmãos romanos e ortodoxos, não tornam isto um elemento central da sua doutrina, preferindo seguir o aforismo clássico anglicano: “todos podem, alguns devem, ninguém é obrigado”.
Um aspecto central, porém é a crença na natureza sacramental do sacerdócio, no caráter sacrificial da Missa e a presença real de Cristo no pão e no vinho consagrados da Eucaristia. Para os anglo-católicos é eucaristia é o coração da vida cristã.
Muitos anglo-católicos também incentivam a vida monástica e o celibato sacerdotal. A maioria dos anglo-católicos também encoraja a devoção à Virgem Maria, Especialmente sob o título de Nossa Senhora de Walsingham, por entender que esse é um elemento constitutivo da tradição católica. Há, porém formas variações de intensidade e estilos entre eles.
O mesmo deve ser tido com relação às práticas eucarísticas e paramentos. Se é verdade que todo o anglo-católico utiliza paramentos e utensílios na celebração eucarística (casula, capa, velas, crucifixo, turíbulo etc.) a forma e a intensidade varia conforme a comunidade. Alguns celebram na forma moderna do Livro de Oração Comum (1979), outros preferem a versão clássica de 1928 e alguns a antiga forma Tridentina, ou mesmo o “Rito de Sarum”, base de toda liturgia anglicana.
As principais características de uma espiritualidade “Elevada” (High-Church)
1. Uma visão elevada da adoração de Deus. O Anglo-Catolicismo sempre enfatizou o a importância da reverência, do temor e do sentido de mistério diante do Sagrado, perante o qual até mesmo os anjos do céu cobrem seu rosto;
2. Uma visão elevada da criação. Ao mesmo tempo, nós nos deleitamo-nos na beleza da criação divina. A visão anglo-católica do mundo é altamente sacramental, vendo os sinais da presença e da santidade de Deus em tudo que ele fez. Na adoração, nós recolhemos o que há de melhor na criação: arte, arquitetura, música, poesia, incenso, flores e cores etc;
3. Uma visão elevada da encarnação. Nossa salvação começou quando Cristo fez morada no ventre da Virgem Maria. Cremos que Deus tornou-se realmente humano, a fim de que, por meio dEle, a humanidade pudesse tornar-se divina;
4. Uma visão elevada do sofrimento. O Anglo-Catolicismo olha não somente a encarnação de Cristo, mas também a sua paixão. A imagem de Jesus na cruz nos lembra da profundidade e do horror do pecado humano, e do alto preço que Deus pagou pela nossa redenção. A espiritualidade anglo-católica envolve um continuo processo de mudança do “pecado” à “santidade’, do “mundo” para “Deus”. Para os anglo-católicos o sacramento da penitência é um recurso indispensável nesse processo;
5. Uma visão elevada da Igreja. Nós escolhemos compartilhar a vida do Cristo, morto e ressurreto. Esse processo começa com nossa incorporação em seu corpo com o batismo e continua durante toda nossa existência. Assim, nós não consideramos a Igreja Católica (Universal) nem como uma instituição de origem simplesmente humana, nem como uma associação voluntária e invisível de crentes individuais, mas como um mistério maravilhoso, um organismo supernatural, cuja vida flui entre seus membros através de sua cabeça, Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo.
6. Uma visão elevada da comunhão dos santos. A Igreja, além disso, consiste não somente de todos os cristãos vivos na terra (a Igreja militante), mas também naqueles fiéis que continuam a crescer no conhecimento e no amor do Deus, e nos santos no céu, que já alcançaram o término de sua jornada (a Igreja triunfante). Nós temos a comunhão com todos os que vivem em Cristo. No interior desta comunidade destaca-se a figura da Bem-Aventurada Virgem Maria, mãe do Senhor e da Igreja. O Anglo-Catolicismo afirma também a legitimidade de orarmos pelos mortos, e de pedir aos santos no céu que nos ajudem com suas orações.
7. Uma visão elevada dos sacramentos. Nós acreditamos que Jesus Cristo nos comunica realmente e verdadeiramente sua vida, presença, e graça por meio dos sete sacramentos. Dois desses são destacados. O Santo Batismo estabelece a nossa identidade uma vez por todas, como crianças de Deus e herdeiros do Reino do céu (embora esteja em nós a liberdade para escolhermos aceitar ou repudiar essa herança). E a Santa Eucaristia, onde Cristo tornar-se realmente presente no santíssimo sacramento do seu Corpo e Sangue. A adoração eucarística é assim um componente integral da espiritualidade e da devoção anglo-católica.
8. Uma visão elevada das Sagradas Ordens. Desde os dias do movimento de Oxford, o anglo-catolicismo afirmou que o tríplice ministério dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos em sucessão apostólica é um presente de Deus. A validez dos nossos sacramentos e a plena pertença à Igreja Santa, Católica e Apostólica depende da manutenção deste dom divino. Por esta razão, as inovações que ameaçam a autenticidade das nossas ordens apostólicas devem ser resistidas a todo custo.
9. Uma visão elevada de Anglicanismo. Nós afirmamos que as igrejas anglicanas são verdadeiramente parte da Santa Igreja Católica de Cristo. A vocação profética do Anglo-Catolicismo consistiu precisamente em testemunhar a catolicidade do Anglicanismo.
Conclusão
Mas nem tudo é harmonia e tranquilidade. Os novos desafios colocam-se aos anglo-católicos do século XXI: a necessidade de redescobrir o ardor missionário, de dar respostas a problemas contemporâneos como à crise de valores éticos e racionais, particularmente quando isso envolve temas polémicos como a ordenação de sacerdotisas e bispas e o homossexualismo. Cabe-nos aceitar estes desafios na certeza que as Palavras de Cristo são, caminho, verdade e vida: “As portas do inferno não prevaleceram sobre ela”.

[1] Pároco da Comunidade Anglo-Católica Anglicana da Natividade – Natal/RN [Natal é um município brasileirocapital do estado do Rio Grande do Norte, pertencente à Região Metropolitana de Natal, à microrregião de Natal, à mesorregião do Leste Potiguar e ao Polo Costa das Dunas].
[2]“Teólogos carolinos” é o nome dado a um grupo de influentes teólogos anglicanos, que viveu durante o reinado de Carlos I e após a Restauração, responsáveis pela “Idade de ouro da teologia anglicana”. São eles: Lancelot Andrews (1555 – 1626); John Cosin (1594 – 1672); Thomas Ken (1637 – 1711), Thomas Espadilha (1635 – 1713); Jeremy Taylor


Ferias no Brasil from Javi Devitt on Vimeo.

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About EL HINCHA Mag Cal Cauvin Calvinista Inclusivo

Protestante por consciência calvinista e zuingliana, um teísta remanescente (cristão integrado na Oholyáo de YÁOHU UL) antinominiano ecuménico e inclusivo (agostiniano, espiritualidade carmelita dos descalços, espiritualidade montfortina, espiritualidade dos presbiteranos liberais da PCUSA: http://www.pcusa.org/, cristianismo redivivo; atento às notícias da ciência hodierna, sempre numa perspectiva inclusiva de todos os Yaoshorulitas e demais seres relacionais) por a absoluta graça do Soberano YÁOHU UL da História e da legenda. Protestante reformado (Baptista particular), cheunguiano (Vincent Cheung, vide: http://robertovargas-make.blogspot.com/2010/08/da-interpretacao-de-textos.html), pós-milenista bíblico, preterista parcial, reconstrucionista(herancareformada.blogspot.com/ 2010/02/o-teonomismo-implicacoes-teologicas.html), teonomista (dominionista), pressuposicionalista, supralapsariano (http://www.monergismo.com/textos/predestinacao/infra_supra_phil.htm), tudo em desenvolvimento; reformar sempre a reformar. Sempre a reformar.

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